O mito de Nanã na Civilização Yorùbá


Devemos iniciar esclarecendo que o mito que temos desta divindade na
diáspora é bem diferente do que temos originalmente na África e ainda nos
dias de hoje.

Nana segundo nos expõe Lépine, era cultuada, (ou cultuado) em uma região
que ia do atual Níger até o Burkina Faso sob diversas designações e sob a
égide de diversas lendas e simbolismos diferentes.

Em todos os casos Nanâ era ligada(o) à terra. Encontramos este mito muito
presente tanto no contexto destas civilizações no período de caça e coleta
quanto no agrícola. Isto o reafirma ainda mais como Orixá Onile e
originalmente ligado a este culto e anterior a chegada de Oduduwa a Ile Ife.

Ainda segundo o que nos conta Lépine, existem regiões em terras yorubás nas
quais a maior parte das Divindades que conhecemos no panteão dos orixás na
diáspora e na maioria das cidades yorubás é desconhecida e só se conhecem
e cultuam Obaluaiye e Nana. Isto nos mostra claramente que se o culto de
Olorun não está em todos os lugares da civilização Yorubá, o culto ao Onile
está, por ser mais antigo.

Na questão do poder duplo Nana estará ligada sempre ao corpo social que
cultua o Onile e, portanto aos administradores e conselhos populares mais
distantes do culto de Olorun que normalmente estará ligado à realeza.
Desta forma, o culto de Nana é na África algo que se relaciona à resistência
dos cultos ancestrais dos antigos autóctones anteriores a Oduduwa. Vemos
elementos claros disso em uma lenda da diáspora da coletânea de Prandi que
segue abaixo:

“Nana proíbe instrumentos de metal em seu culto.
A rivalidade de Nana e Ogum data de tempos
Ogum o ferreiro guerreiro,
Era proprietário de todos os metais.
Eram de Ogum os instrumentos de ferro e aço.
Por isso era tão considerado entre os orixás,
Pois dele todas as outras divindades dependiam.
Sem a licença de Ogum não havia sacrifício;
Sem sacrifício não havia orixá.
Ogum é o Oluobé, o Senhor da Faca.
Todos os orixás o reverenciavam.
Mesmo antes de comer pediam licença a ele
Pelo uso da faca, o obé que se abatiam os animais
E se preparava a comida sacrificial.
Contrariada com essa precedência dada a Ogum,
Nana disse que não precisava de Ogum para nada,
Pois se julgava mais importante do que ele.
“Quero ver como vais comer,
Sem a faca para matar os animais”, disse Ogum
Ela usou o desafio e nunca mais usou a faca.
Foi sua decisão, que no futuro,
Nenhum de seus seguidores se utilizaria de objetos de metal
Para qualquer cerimônia em seu louvor
Que os sacrifícios feitos a ela
Fossem feitos sem a faca,
Sem precisar da licença de Ogum.”

Se considerarmos que o culto a Ogum está ligado ao ancestral Oduduá, que
surge somente após sua chegada em terras yorubás, e que com ele vimos o
advento da forja e conseqüentemente da vida urbana que segue as sociedades
agrícolas e de caça e coleta quando predominava o culto de Nana e ao Onile,
entendemos melhor o que representa esta resistência de Nana em usar a faca.
Em uma sociedade na qual a ancestralidade determina relações de poder,
vemos neste primeiro exemplo mais uma vez uma relação dupla entre o poder
da ancestralidade que resiste para não perder seu lugar e o poder da
tecnologia e das novas gerações que inova. Talvez ao observar isso teremos
métodos mais eficazes para estabelecer relações com esta África que
respeitem suas origens primordiais. O mesmo serve para nós filhos de suas
diásporas que relutamos em enxergar nesta África nossas origens ancestrais
somente porque grande parte de nós não têm mais a pele negra, e neste
processo negamos muito de que nós mesmo ainda somos.

Nanâ e a ancestralidade. Origens do mito
Por estar ligada ao culto ao Onile e conforme observamos acima, Nana está
intrinsecamente ligada à ancestralidade, sobretudo a partir deste conceito
segundo o culto ao Onile. Isto se evidencia quando ouvimos os versos:

“Presto homenagem aos ancestrais”
“Minha mãe estava primeiro em Baribá”
“Venho saudar o Onile (dono da terra) para que ele me proteja.”
Temos aqui também dados históricos da origem do mito entre algumas cidades
yorubás, proveniente originalmente da Terra dos Baribás, o que contribui com o
que nos diz Lépine sobre o Mito.
Outro fator importante que não podemos deixar de ressaltar trata-se da
referência direta tanto à ancestralidade quanto ao Onile que ratificam a
importância de seu papel na estrutura desta sociedade de linhagens.

Código Moral de Nana e provérbios dos Orikis.
Nesta ultima parte nos ateremos mais aos aspectos do sistema moral e das
funções pedagógicas e sociológicas do mito de Nana.
Segundo no expõe Bolanlé Awe em sua obra, os Orikis podem nos falar de
fatos históricos e no caso de dois versos de Orikis de Nana vemos, além disso,
a sua influência social assim como o domínio Yorubá dentre os Fon em dois
versos:
“Orixá que impediu o Fon de circuncidar-se” (que pode estar relacionado com
sua origem andrógina entre os Fon)
E também “Orixá que obriga o Fon a falar Nagô” (Provavelmente em uma
alusão do domínio de Oyo ao Daomé até a época do Rei Glele que ao travar
uma guerra com Oyo inverte a situação no século XIX)

Nos casos acima vemos claramente neste código moral a função sociológica
do mito e um pouco da história da relação entre os Yorubás e os Fon. Vemos
em outros versos sua função pedagógica, como por exemplo:
“O covarde não tem título”
Verso que nos mostra claramente que o covarde nesta sociedade é um
transgressor moral.

“Onile (dono da casa) mete medo no malfeitor”
Outro verso que também nos mostra claramente que o malfeitor é tratado
igualmente como um transgressor moral nesta sociedade.
“Ele mata aquele que é mau”
Verso que nos reforça a transgressão moral do malfeitor.
“Não se pode saber o que existe dentro de um saco”

Mostrando em sua função pedagógica que muitas vezes a curiosidade pode
trazer problemas.
“Nós o chamamos sem dormir”
“Não morrer em casa, não morrer viajando”
Versos que relacionados ao culto da Senhora dos Mortos falam dos
inconvenientes que a morte em lugares inapropriados podem trazer.
“Nada tirar de um centavo não o diminui”
Em uma alusão clara ao conceito de economia.

Em outros versos vemos fatores importantes que inspiram comportamentos e
ao mesmo tempo descrevem o mito de Nana, mostrando bastante de sua
função pedagógica e delineando um código Moral.
“Ela encontrou dinheiro, chefe devagarzinho”
“Eu o primeiro a usar uma espada”
“Força para pegar inimigos”
“Ela não te conhece, ele não te felicita”
“Uma coisa semeada dentro de casa cresce até o lado de fora”
“Ela faz tudo”
“Não se pode olhar no olho da morte”
“Sabemos o que ele faz, não sabemos o porquê”
“Ela divide a guerra em dois” (em uma alusão aos lados de que combatem os
inimigos, mas que independente do lado tem mortes iguais)
“Ela faz o que bem entende”
“Muito Velha”
“Invocamos depressa o Orixá”
“Nós o vemos divertir-se e não conhecemos os seus hábitos”
“Ela tem força sem recorrer a remédios”
“Nós o olhamos, mas ele não desvenda o segredo”
“Ela dá alegria para todo mundo”
“Se alguém for muito bom ele o mata” (no sentido da morte como redentora)
“Ela é solitário, ele é conhecido”
Para concluir, temos em um verso de Oriki uma alusão a lenda que temos na
diáspora e que nos diz:

“Ela mata o carneiro sem utilizar a faca”

Que nos faz pensar em Nana e conseqüentemente em como na nossa
sociedade de consumo e ocidental nos recusamos ainda em defender
tradições que são tão nossas que herdamos desta diáspora africana.

 

Nanã Buruku

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